Uma coisa comum acontece com quem tem bastante conhecimento sobre um assunto: a dificuldade de resumir, de ser mais direto e assertivo na hora de falar sobre aquilo.
Vem uma pergunta do tipo “me resume isso rapidinho”, “me explica rápido o que você faz”, “me conta sobre seu projeto enquanto vamos até a saída”. E você trava. Não sabe por onde começar, se embola, se perde, fica nervoso, fala rápido demais tentando encaixar tudo, e no final fica com a sensação de que não conseguiu ser claro.
Isso não acontece por falta de conhecimento. Pelo contrário, você sabe até demais sobre o assunto. E isso não vale só para o trabalho: acontece também quando alguém pede pra você falar sobre aquele livro que está lendo, ou sobre a série que você não para de recomendar.
O problema é uma crença bem comum: a de que quanto mais você explica algo, mais claro fica. Então, quando alguém pede um resumo ou pouco tempo pra falar, você tenta encaixar a explicação inteira, só que mais rápido. E é exatamente aí que a fala embola: o pensamento está correndo rápido demais, e a boca tenta dar conta de um conteúdo que não foi feito pra caber naquele tempo.
Se você já passou pelas outras etapas dessa série, essa aqui é o ponto de encontro de tudo: o ponto principal do PDF, o mapa que evita que você se perca, a pausa antes de responder. Saber resumir é, no fundo, saber usar tudo isso ao mesmo tempo, só que sob pressão de tempo.
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É como fazer mala para uma viagem curta

Se você não escolhe antes o que vai levar, tenta enfiar o guarda-roupa inteiro na mochila, e ela não fecha. Com a fala é a mesma coisa. Capacidade de síntese é saber, antes de abrir a boca, o que fica e o que sai da sua comunicação.
No livro Como Convencer Alguém em 90 Segundos, Nicholas Boothman conta que uma boa estratégia é fazer o assunto caber no tempo de um comercial de TV, ou seja, curto e direto. Já Dale Carnegie, em Como Falar em Público e Encantar Pessoas, explica que uma boa apresentação nasce do mesmo espírito seletivo: você reúne cem pensamentos e descarta noventa, ou até noventa e nove. Isso não te deixa menos preparado, te deixa mais confiante, porque você conhece o assunto a fundo e ainda consegue escolher o que realmente faz sentido manter naquela situação.
Duas ideias de fora da fonoaudiologia que explicam bem isso
Existe uma prática bem conhecida no mundo dos negócios chamada elevator pitch: a ideia de conseguir explicar uma proposta inteira no tempo de uma viagem de elevador. Um artigo da Harvard Business Review sobre o tema conta que roteiristas de Hollywood têm poucos minutos para apresentar a ideia de um filme, mas produtores decidem se compram a ideia em menos de um minuto, só ouvindo a frase que resume do que se trata a história. Se não existe essa frase resumo, dificilmente a venda acontece. É basicamente o mesmo desafio de resumir seu projeto, sua opinião ou seu dia, só que aplicado ao cinema.
Outra referência interessante vem do mundo da consultoria. Barbara Minto, primeira mulher a virar consultora na McKinsey, criou um jeito de organizar qualquer explicação complexa começando pela conclusão, e só depois mostrando os motivos e os detalhes que sustentam essa conclusão. É basicamente o oposto de contar uma história do começo ao fim: você entrega o resumo primeiro, e só desce aos detalhes se a pessoa quiser ou precisar. Essa lógica está descrita no livro dela, O Princípio da Pirâmide, e explica muito bem por que começar pelo ponto principal, como já vimos no primeiro artigo dessa série, funciona tão bem quando o tempo é curto.
Três passos para treinar dizer só o essencial
Primeiro: cronometre de verdade
Pegue qualquer ideia que você já sabe bem e tente falar sobre ela em 30 segundos, com cronômetro rodando de verdade. Isso mostra na prática se você já sabe separar o essencial ou se ainda está tudo misturado.

Segundo: olhe o que ficou de fora
Se não coube em 30 segundos, repare no que sobrou fora da fala. Geralmente é ali que mora o essencial. O erro comum é achar que faltou tempo. Quase sempre faltou triagem antes de começar a falar.
Terceiro: treine com temas pequenos do dia a dia
Não deixe pra treinar só nos momentos importantes. Pratique com assuntos pequenos e sem risco, como aquele livro ou aquela série. É assim que você para de travar quando alguém pede pra você resumir.
Para fechar
O melhor resultado desse treino não é só falar mais curto. É passar a confiar que você sabe o que é essencial, sem precisar falar tudo pra provar que sabe.
Se quiser se aprofundar mais na leitura, essas indicações ajudam bastante:
- Como Convencer Alguém em 90 Segundos, de Nicholas Boothman
- Como Falar em Público e Encantar Pessoas, de Dale Carnegie
Fontes externas usadas neste artigo:
- Carmine Gallo, “The Art of the Elevator Pitch”, Harvard Business Review: https://hbr.org/2018/10/the-art-of-the-elevator-pitch
- Barbara Minto, O Princípio da Pirâmide: https://link.amazon/B0f83Qmig
Conta aqui nos comentários: qual assunto você teria mais dificuldade de resumir em 10 segundos?
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