Sabe quando você começa a falar, vai falando, vai falando, e não sabe mais onde parar? Ou dá tantos detalhes, conta tanto da história, que na hora de fechar já nem lembra bem qual era o ponto?
Essa dificuldade de se organizar e acabar sendo prolixo é uma das queixas que mais chegam ao meu consultório. E o padrão de novo é o mesmo do artigo sobre pensamento acelerado: pessoas que sabem muito sobre o assunto, mas que na hora de falar se perdem no meio do caminho.
O problema aqui não é a pressa do pensamento saindo na frente da fala. É outro: você começa bem, mas ao longo da fala um pensamento vai puxando o outro, e você acaba em lugares que nem pretendia visitar.
E o pior não é só se perder. É perceber que quem está ouvindo também se perdeu, ou já está cansado. Aí vem aquele apelido nada gentil de “palestrinha” da turma. Em outros casos, você nem chega a se posicionar numa reunião ou conversa importante, porque já sabe que vai acabar falando demais. Ou começa com segurança e vai desviando tanto do assunto que termina sem dizer o que realmente queria.
E tem aquela cena clássica: alguém menos preparado que você fala a mesma coisa de um jeito simples e direto, e sai parecendo mais qualificado. Não porque sabe mais. Porque se fez entender melhor.
Se algum desses cenários já aconteceu com você, fica tranquilo. Resolver isso é mais simples do que parece.
O problema não é falta de clareza, é falta de mapa
Você sabe sobre o assunto. Se sentasse com calma para escrever, provavelmente organizaria tudo com clareza. A questão é que a fala do dia a dia não acontece assim. Ela é espontânea, rápida, sem aquele tempo de planejar cada frase.
E numa fala espontânea, sem nenhum ponto de referência, um pensamento vai puxando o outro até você se perder ou simplesmente parar, sem saber mais para onde estava indo.
Fala espontânea não precisa ser sinônimo de fala sem nenhuma organização. O que resolve isso não é decorar um roteiro. É ter um mapa mental simples, com ponto de partida e ponto de chegada bem marcados, para que você não se perca pelo caminho.
Leia também: O que fazer quando o pensamento sai na frente da fala
Se o artigo anterior falava de como organizar o pensamento quando ele sai na frente da fala, este é sobre outra situação: quando você já começou a falar e precisa de um jeito de não se perder até o fim.
Como construir o seu mapa da fala
São três movimentos simples. Servem tanto para uma conversa rápida quanto para dar um feedback, explicar um procedimento ou defender uma ideia numa reunião.

Primeiro: marque o ponto de partida
Em uma frase curta, diga o que você quer que a pessoa entenda. É a bússola que te leva até o fim da fala sem desviar de rota.
- “Eu preciso falar com você sobre o fechamento do caixa.”
- “Eu preciso falar com você sobre seu atraso ontem.”
- “Vou te explicar como funciona esse procedimento.”
- “A minha ideia para essa campanha é fazer isso.”
Segundo: explique a razão
Diga por que esse ponto importa, ou por que ele é verdade, antes de partir para exemplos ou detalhes. Pular direto para o exemplo sem essa razão é onde a fala costuma se perder de novo, porque o exemplo fica solto, sem nada que o sustente.
- “…porque eu fiquei com dúvida a respeito de um valor.”
- “…porque está acontecendo com certa frequência, e precisamos resolver isso.”
- “…para que você fique tranquila durante o atendimento.”
- “…porque, de acordo com os últimos dados, esse meio de divulgação sempre tem bons resultados.”
Terceiro: feche com um exemplo e volte ao ponto
Dê um exemplo concreto e, na sequência, retome o ponto inicial com outras palavras. É esse movimento de ida e volta que evita que você se perca no meio.
Veja como fica, juntando os três movimentos:
“Eu preciso falar com você sobre seu atraso ontem. Isso já é a terceira vez esse mês, e está afetando o início do nosso atendimento. Queria entender se tem algo acontecendo que eu possa ajudar a resolver. De qualquer forma, preciso que a gente ajuste isso daqui pra frente.”
Repare que a fala começa com o ponto, passa pela razão, dá um exemplo real, e fecha retomando a mesma ideia do início, só que com outras palavras. Quem ouve sai sabendo exatamente o que você quis dizer, sem você precisar repetir tudo de novo, e sem aquela sensação de “acho que não me expliquei direito”.
Perguntas frequentes
Por que eu começo a falar e não sei onde parar? Porque a fala espontânea acontece sem tempo de planejamento prévio, e sem um ponto de referência claro, um pensamento vai puxando o outro até você perder o fio da meada.
Ser prolixo tem a ver com nervosismo? Pode ter, mas na maioria dos casos que vejo no consultório o motivo principal é a falta de estrutura, não a ansiedade. Mesmo pessoas seguras se perdem quando não têm um ponto de partida e chegada bem definidos.
Esse método funciona para conversas informais também? Sim. Funciona para qualquer situação onde você precisa se fazer entender, de um feedback rápido a uma explicação mais longa. A ideia é sempre a mesma: ponto, razão, exemplo e volta ao ponto.
Para fechar
Ser prolixo não é falta de conteúdo. É falta de mapa. Com um ponto de partida e chegada bem definidos, sua fala espontânea ganha uma estrutura simples, sem perder a naturalidade.
Se você gosta de se aprofundar mais no tema pela leitura, como fizemos no artigo anterior, separei algumas indicações que ajudam bastante nesse assunto:
- Comunicar para Liderar, de Leny Kyrillos e Mílton Jung
- Escute, Expresse e Fale!, de António Sacavém, Leny Kyrillos, Mílton Jung e Thomas Brieu
- Fale Menos, Comunique Mais, de Carla Rocha
- Pense Rápido, Fale Melhor, de Matt Abrahams
Deixe nos comentários se você se identificou com a fama de “palestrinha” da turma, ou se o seu problema é mais o de nunca conseguir se posicionar. Isso me ajuda a pensar em novos conteúdos para você.
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