Alguém chega para te contar alguma coisa e, enquanto ela fala, você já vai completando as frases dela na sua cabeça, adivinhando onde ela quer chegar. Às vezes ela precisa te corrigir: “não, não é isso, é isso”. Outras vezes ela nem termina a pergunta e você já responde “ah, já sei, você quer saber disso”, só para ouvir de volta, meio sem graça, “na verdade não, eu só queria saber como foi seu fim de semana”.
Aí a pessoa fica sem graça, e você também.
Pode ser que isso te incomode, com medo de parecer que não deu atenção, ou de que a pessoa ache que você não se interessa pelo que ela fala. Se é uma relação pessoal, a chance de você já ter ouvido um “tá vendo, você não me escuta” é bem grande.
E você tem certeza de que escutou, só estava adiantando o assunto para ganhar tempo.
O problema aqui não é falta de interesse. É que, de fato, você não escutou até o final.
Por que isso acontece
A gente costuma achar que ir pensando na resposta ou completar a ideia do outro antes dele terminar é uma forma de ser mais prático, de ganhar tempo para resolver as coisas mais rápido. Mas na verdade isso é o cérebro tentando poupar energia, completando a fala do outro sem considerar o que ele realmente diria, e sim o que você acha que ele diria.
Essa ideia tem nome. O matemático e filósofo Alfred Korzybski, em 1931, formulou o conceito de que “o mapa não é o território”, e ele se tornou um dos pressupostos centrais da programação neurolinguística. A ideia é simples: cada pessoa constrói uma representação da realidade, um mapa, mas nenhum mapa é o território completo.
Imagine duas pessoas no mesmo penhasco à beira-mar. Uma está embaixo, na praia, olhando para cima, e vê um paredão de rocha gigante. Para ela, aquele paredão é o limite do território, não dá para saber o que existe do outro lado. A outra está em cima do penhasco, olhando para baixo, e vê um campo enorme cheio de árvores, e bem ao longe, uma faixa pequena de areia com um mar revolto. Para ela, o território é aquele campo, e a praia é só um detalhe distante e inacessível.

As duas estão descrevendo o mesmo lugar, só que a partir de mapas completamente diferentes, cada um limitado à própria posição.
Com a comunicação acontece algo parecido. Você constrói suas percepções a partir do que já conhece, do que aprendeu desde criança, do que estudou, das pessoas e das línguas que conhece, das palavras que aprendeu, dos livros que leu. Por isso, quando alguém está te contando algo e você já vai completando a fala, você não está completando com o que a pessoa ia dizer. Está completando com o que o seu cérebro acha que ela diria, de acordo com o seu mapa, não com o dela.
É daí que nascem boa parte dos mal-entendidos e das dificuldades de comunicação. E a conversa que você queria que fosse rápida acaba ficando mais longa do que precisava, porque você teve que se explicar de novo, ou pior, se explicar mais de uma vez. É o mesmo problema que já vimos no artigo sobre como resumir sem se perder: quanto mais mal-entendido, mais longa a conversa fica.
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O primeiro passo não é falar melhor, é escutar até o fim
Você não precisa adiantar o final da frase do outro para ser assertivo na conversa. A primeira coisa que vai mudar sua forma de se comunicar é treinar escutar o outro até o fim.
A escuta é uma das habilidades mais importantes para quem se comunica bem, tanto que vários livros se aprofundam só nesse tema:
- Escutatória, de Thomas Brieu, baseado no conceito criado por Rubem Alves. O livro fala sobre como dar “provas de escuta” para o outro, indo além de apenas ouvir as palavras.
- Supercomunicadores, de Charles Duhigg. Ele defende que toda conversa é, na verdade, uma entre três tipos, prática, emocional ou social, e que boa parte dos mal-entendidos vem de responder ao tipo errado de conversa.
- Escute, Expresse e Fale!, de António Sacavém, Leny Kyrillos, Mílton Jung e Thomas Brieu, já indicado no artigo sobre resumir, com um capítulo inteiro dedicado a escutar mais e melhor.
Três passos para parar de completar a fala do outro
Primeiro: foque só em escutar
Enquanto a pessoa fala, escute as palavras, mas também o que ela mostra além delas: o tom de voz, a expressão do rosto, os movimentos do corpo. Esse não é o momento de já ir pensando no que você vai responder em seguida.
Segundo: segure o impulso de completar
Se perceber que já “sabe” o final da frase dela, segure esse impulso e espere confirmar ouvindo até o fim de verdade. O erro é responder ao que você imaginou que ela ia dizer, não ao que ela realmente disse.
Terceiro: só monte a resposta depois que ela parar de falar
Assim como já vimos no artigo sobre pausar antes de responder, comece a organizar sua resposta só depois que a pessoa terminar, nunca durante. É assim que você para de atropelar a própria fala depois.
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Para fechar
O melhor de escutar até o fim é que sua resposta fica mais precisa, chega no tempo certo, e a conversa flui sem você correndo atrás dela.
Conta aqui nos comentários: você já viveu aquela cena de responder algo que a pessoa nem tinha perguntado?
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